segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O que contamina o homem - A essência ...


O que contamina o homem - A essência da Espiritualidade (Mc 7.1-22)


Por Bispo José Ildo Swartele de Mello

Por conta da gripe suína, está se falando muito sobre a importância de lavar as mãos. No passado, Jesus travou um debate com os fariseus sobre algo que tinha a ver com lavar as mãos. Mas Jesus não estava legislando sobre higiene e saúde. Para uma melhor compreensão do assunto é fundamental uma análise do contexto.

Os líderes religiosos legalistas da época do Novo Testamento criticaram os discípulos de Jesus por não terem lavado as mãos antes de uma refeição. Bem, se a queixa dissesse respeito à higiene e à saúde até que faria sentido, mas não era este o caso. O problema é que os discípulos de Jesus estavam infringindo uma das muitas regras espirituais criadas e sustentadas por aquele grupo religioso. Segundo eles, a contaminação era de ordem espiritual e não física. Alguém que quebrasse a regra não estaria sujeito a uma doença física, mas sim a uma enfermidade espiritual. A santidade era medida através do cumprimento das regras e proibições, de modo que o indivíduo era excluído do grupo, recebendo a pecha de profano, imundo e pecador caso não as obedecesse.

Jesus bateu de frente com aqueles religiosos, dizendo que tais regras são inócuas e não produzem santos, mas apenas hipócritas preocupados com a fachada espiritual, quando a sua própria estrutura está completamente comprometida. Como exemplo da inconsistência de tal pensamento religioso, Jesus menciona uma regra que os religiosos costumavam usar para burlar a lei áurea do amor. Em nome de sua tradição espiritual estavam deixando de honrar e cuidar de seus próprios pais. Acabamos negligenciando o principal quando nos apegamos a picuinhas.

Regras acabam por afastar os homens da essência da verdadeira espiritualidade. Aprendam o que significa misericórdia quero e não sacrifícios (Mt 9.13). O Apóstolo Paulo declarou que Jesus nos livrou das regras e preceitos humanos através da sua morte,”encravando-as na cruz” (Cl 2.14), portanto a espiritualidade não se mede através da observância de tais proibições; “ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados. Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2. 16-23).

O ascetismo para muitos é sinônimo de santidade. Mas Jesus não era asceta como João Batista e nem vegetariano como Daniel. Jesus era visto constantemente comendo e bebendo em festas, nas casas e até mesmo na companhia daqueles que eram considerados pecadores. Tanto que seus adversários maldosamente o chamavam de comilão e beberrão (Mt 11.19). Tal comentário era maledicente, pois Jesus não era dado a excessos, agindo sempre de maneira comedida e exemplar, embora isto não fosse satisfatório para aqueles que possuíam uma mentalidade legalista e asceta.

O legalismo só produz crente do tipo sepulcro caiado, bonito por fora, mas sem vida lá dentro (Mt 23.27-28). O legalismo gera um ambiente de críticas e juízos condenatórios. Maquiados e travestidos de uma pretensa espiritualidade, os que se sentem guardiões da santidade, partem sem dó nem piedade para cima dos infratores. Advertindo contra o perigo da hipocrisia, Jesus disse: “Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós. (Mt 7. 1-2). “Aquele que estiver sem pecado que atire a primeira pedra” (Jo 8.7)! “Por que reparas tu o cisco no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? (Mt 7:3). “Tu, porém, quem és que julgas a outrem?” (Rm 14.4).

Certa vez, Valquíria, esposa do Pr. José Carlos Teodoro, conversava com uma amiga sua que pertencia a uma igreja legalista. À medida que ela compartilhava uma bênção, sua amiga retrucava: “É, mas o Senhor está pedindo o seu cabelo”. Ela testemunhava um outro grande feito de Deus em sua vida, e lá vinha a legalista, dizendo: “É, mas o Senhor está pedindo o seu brinco”. Por fim, a Valquíria contou mais uma bênção e de novo a amiga reagiu dizendo: “É, mas o Senhor está pedindo as suas unhas”. Aí, então, a Valquíria, indignada, rebateu as críticas dizendo: “É, mas o Senhor está pedindo a sua língua!”

O que contamina a alma humana não é o que entra pela boca, mas o que dela sai. Porque a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6.45). “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. (Pv 4:23). Em Mateus 12.35 a 37, disse Jesus: “O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, mas o homem mau do mau tesouro tira más coisas. Mas eu vos digo, que toda palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, por tuas palavras serás condenado”. E Tiago emenda: “” Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã” (Tg 1.26). “Assim também a língua é um pequeno membro, e se gaba de grandes coisas. Vede quão grande bosque um tão pequeno fogo incendeia. A língua também é fogo, mundo de iniqüidade situada entre os nossos membros. Ela contamina todo o corpo, inflama o curso da natureza, e é por sua vez inflamada pelo inferno (Tg 3.5,6).

Santidade, portanto, não é algo que se constrói de fora para dentro, mas de dentro para fora. Tem a ver com essência e coração. Não adianta dar um trato na aparência exterior. Nem adianta investir na decoração. Pois espiritualidade é uma questão de estrutura. No entanto, regras e proibições só conseguem atingir a superfície, não têm podem para transformar o coração. Quando a espiritualidade está centrada na fachada, a hipocrisia e o espírito crítico são inevitáveis. O legalismo sufoca a graça e a misericórdia. Só o amor de Deus pode cativar e transformar o coração humano. O amor procede de Deus. Amor gera amor. Nós o amamos porque ele nos amou primeiro (1 Jo 4.19). O amor é fruto do Espírito (Gl 5.22). Amor é algo que procede do coração. O remédio de Deus para o coração humano é Amor. Todos os mandamentos se resumem a um só: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Rm 13.8-10).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O PECADO DE MOISÉS

O PECADO DE MOISÉS - Um alerta a todos os cristãos

Por Bispo Ildo Swartele de Mello



Baseado em Números 20



Moisés é conhecido por sua mansidão, fé e obediência a Deus. Tais qualidades caracterizaram o seu ministério. Mas, agora, já no final, ele peca.



Qual foi o seu pecado?



O contexto era o seguinte: Após o funeral de Miriã, o povo de Israel murmurava contra Moisés e Aarão, servos de Deus, reclamando da falta de água. Moisés busca a orientação de Deus, que lhe diz para que falasse a rocha pra que dela saísse água



O problema foi que Moisés não seguiu estritamente as orientações divinas. Ele acabou desobedecendo e desapontando a Deus (v. 12).

Em vez de falar a rocha, Moisés, amargurado, frustrado, irritado, perde a paciência com o povo quando contempla a nova geração cometendo o mesmo pecado de incredulidade e murmuração de seus antepassados. Moisés está irado (v. 10), e, por isso, fala irrefletidamente, com o povo e fere a rocha com o bordão por duas vezes (Sl 105.32-33 diz: "Depois, o indignaram nas águas de Meribá, e, por causa deles, sucedeu mal a Moisés, pois foram rebeldes ao Espírito de Deus, e Moisés falou irrefletidamente").



Por que Moisés se irou tanto? Não era a mansidão o seu ponto mais forte? Moisés havia amadurecido muito na área de mansidão, pois 40 anos já haviam se passado desde o registro de sua última atitude mais intempestiva quando quebrou as tábuas da lei em vista da idolatria do povo. E olha que nestes 40 anos não faltaram oportunidades para a ira de Moisés. Mas ele se portou de maneira muito mansa e paciente, sinal de sua plena confiança em Deus. Então, por que ele não demonstrou aqui a mesma paciência de antes? Não teria ele se irado por achar que todo seu esforço durante aqueles 40 anos dirigindo aquele povo tinha sido em vão? Não teria ele sido tomado por uma sensação de fracasso pessoal? Digo isto, pois eu também passei por algo semelhante quando após haver me dedicado a evangelizar e discipular um locutor da Rádio, onde eu trabalhava, depois de mais de 6 meses de esforço concentrado, com a graça de Deus, ele havia abandonado os vícios e feito muitos progressos, mas, num determinado dia, ele retrocedeu abruptamente para o pecado. Fiquei indignado com a situação e me zanguei com ele. E para minha surpresa, ele me disse: ‘você não está triste por meu estado em si, mas, principalmente, por seu fracasso em me conquistar para Cristo, pelo seu tempo perdido!” Ele percebeu que minha ira não possuía as motivações mais puras. Talvez tenha sido este também o caso de Moisés.



Observar também que Moisés disse ao povo: “Faremos sair água” (v. 10) – Teria Moisés, aqui, num momento de crise de autoridade espiritual, chamado a glória para si? Pois, Deus diz que ele “Não Santificou a Deus” (v. 12; Nm 27.14)



Deus disse que Moisés também agiu com incredulidade (v 12). Em que sentido Moisés não creu em Deus? Parece que Moisés não confiou na Palavra, pois Deus mandou apenas que ele falasse a rocha, mas Moisés não achou que fosse suficiente falar, ele resolveu apelar para a força e feriu a rocha, não apenas uma, mas duas vezes. "Nem por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos!" Diferente de Moisés, temos o exemplo do centurião romano que mostrou fé na Palavra: Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado (Mateus 8:8). Pedro também demonstrou fé na Palavra: “Nada temos pescado até agora, mas sob tua Palavra lançaremos as redes". No entando, Moisés apelou para o bom, seguro e tradicional método da vara. Agiu na carne. Não obedeceu a orientação do Espírito. Não esperou em Deus. Confesso que já senti esta tentação. As vezes não seguimos a direção do Espírito por nos sentirmos muito mais seguros em agir de outra forma, ou seja, da nossa maneira. Somos tentados a apelar para métodos, recursos e artifícios a fim de demonstrar nossa autoridade espiritual. As vezes o pregador grita, não porque esteja movido pelo Espírito, mas porque sente seu sermão não está agradando ou exercendo o resultado esperado.


Quando eu estava preparando esta mensagem. Fiquei pensativo. Não sentia muita firmeza, pois não teria tempo de me preparar como gostaria. Pensei em lançar mão do bom e seguro método da vara, apelando para o esboço de algum sermão antigo, ou coisa do gênero. Foi aí que esta mensagem mais me falou ao coração. Vencido pelo Espírito, vim aqui comunicar o que Deus me deu como mensagem. A Palavra de Deus é viva e eficaz. Ela não volta vazia. Devo confiar.



 Este episódio também nos ensina que devemos perseverar até o fim. Muitos anos de experiência em andar com Deus não nos tornam imunes ao pecado. É preciso vigiar. Moisés pecou naqueles que haviam se tornado pontos fortes de seu caráter e ministério: confiança e mansidão. O pecado traz graves consequências. Moisés foi impedido de entrar em Canaã. Cuidado com o pecado!



Lendo o salmo 95, notei que a ira de Moisés o levou a desobedecer a Deus. Moisés não queria dar água ao povo. No entendimento de Moisés, o povo não merecia receber água. Deus deveria punir o povo e não lhe pedir que falasse a rocha para que dela saísse água para o povo. Talvez Moisés quisesse fazer justiça com as próprias mãos, não confiando e nem esperando a manifestação da justiça divina.



Quantas vezes nos sentimos como Moisés indignados com uma ou mais pessoas que agiram de modo a esgotar a nossa paciência, mas Deus nos diz para falar e dar água ao povo. Jesus pede para darmos a outra face e para caminharmos outra milha. Deus quer que não paguemos o mal com o mal, mas deseja nos ver dando água para o nosso inimigo. Ficamos indignados, não queremos dar água ao povo, queremos justiça. Este texto nos ensina a não sermos vingativos, mas a darmos lugar a justiça divina (Ver também Rm 12).



 Este episódio nos adverte contra o perigo do pecado. Devemos vigiar. Devemos confiar sempre no Senhor. Precisamos ter fé na Palavra e não em nós mesmos. Jesus falou: "Sem mim nada podeis fazer!" Devemos depender sempre de Deus e não confiar em nossa própria técnica. Devemos dar glórias sempre a Deus e não chamar a atenção para nós mesmos. Não devemos fazer justiça com as próprias mãos, não devemos ser vingativos. Não devemos pagar o mal com o mal, mas sim com o bem, dando água e comida aos nossos próprios inimigos. Vamos confiar e sempre esperar em Deus!

Curso de Evangelização - Algumas lições